sexta-feira, 31 de março de 2017

O que o tempo não arrasta



Há um ano o meu Amigo Ivar Corceiro chegou à Bulgária. Lá aterrou também uma imensa parte de mim. Uma parte que ele conquistou, ou melhor, algo imenso que se transformou a cada gargalhada que partilhámos. Quando nos despedimos o meu riso afogou-se num mar salgado. Dentro de mim uma mistura tão complexa quanto a sopa Búlgara que ele descreve. O medo do futuro incerto, a alegria de saber que ele iria renascer, o egoísmo profundo da saudade… E também a revolta. Uma revolta ensurdecedora pelo choque da realidade social, a certeza dos sonhos falhados, a desilusão das nossas crenças.

Já várias vezes escrevi sobre ele e outras mais deixei escapar a vontade de o fazer. Passadas quase 9 000 horas de ausência do seu abraço volto a dedicar-lhe o que tenho de mais puro, a seguir ao meu pensamento, as minhas palavras. E ele sabe tão bem o que as palavras significam para mim! Foi na partilha destas que a nossa amizade surgiu, as palavras que deram lugar aos discursos, aos gritos de ordem nas ruas, às conversas ideológicas e filosóficas. Mais tarde a desilusão partidária e pessoal que sentimos, a mesma desilusão que nos afastou do percurso onde nos conhecemos, deu lugar ao silêncio. Foi nesse silêncio mútuo e partilhado que a nossa amizade se solidificou. Um silêncio confortável só se partilha com quem nos faz bem, com quem amamos. É assim com o meu Amigo-Irmão… Foram tantas as vezes que intercalámos as longas horas de conversa com o silêncio. Momentos sentidos com lágrimas nos olhos ou com um sorriso nos lábios.  

Na grande cidade de Sófia ele depressa transformou o espaço e conquistou afetos. É muito fácil para ele encontrar novas moradas em amigos que se multiplicam, a cada brinde observa e encontra noutros a substância que o mantém vivo. Numa busca incessante dele mesmo encontra novos mundos que o acolhem de braços abertos. Bebe a coragem, não de um copo vazio mas, de um copo cheio de emoções e de intensidade em cada instante que respira.

Neste ano que passou muitas coisas mudaram nas nossas vidas e tudo o que nos toca partilhamos por conversas sempre insuficientes. O Ivar pertence ao pequeno núcleo das pessoas que me conhecem integralmente. Quando esteve em Aveiro, num sopro de tempo que atiçou as saudades, disse-me que antes de vir tinha medo de me ver e de não se sentir ele. Tudo o que encontrou na Bulgária o transformou e temia não se reconhecer nas conversas que só nós entendemos. Eu tinha um receio idêntico, o receio de não ter nada interessante para partilhar com o Amigo que em nove meses viveu mais do que eu em anos. Tontice a nossa porque o que nos aproximou foi algo muito superior a qualquer conteúdo que caiba numa conversa, algo intrínseco a nós, talvez não a maneira de pensar mas sim de sentir ou a vontade incessante de sonhar e de viver para sonhar ainda mais.


Escrevo no silêncio que os pássaros madrugadores interrompem. Nos lábios um sorriso e olhos inundados pela saudade. Dedico-te este momento de contrastes Ivar.

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