domingo, 23 de outubro de 2016

Saudades



“É bom sentir saudades, é sinal que estamos vivos.” Repetiu-me inúmeras vezes o meu amigo nas primeiras conversas que a internet nos permitiu. E com isto eu sorria por reconhecer diversos significados carregados por esta simples frase. Dizendo isto ele tentava desbloquear as minhas cordas vocais presas pela vontade de chorar ao mesmo tempo que interpretava a sua própria dor por estar longe dos que ama. Sei que para ele é mesmo assim, a saudade dá-lhe vida e só encontra energia nas emoções fortes e cruas das quais se alimenta.


Com esta frase comecei a sentir a saudade mais doce do que amarga. Ele tem razão, sentimos o pulsar do coração com mais força sempre que a saudade nos bate à porta. Mas além disso sei que a saudade e o amor andam de mãos dadas e quanto mais alto é o som da porta maior é o amor que temos pela pessoa ausente. 


Conheci este sentimento quando os meus irmãos saíram de casa para estudar fora. O meu pai, seguindo o meu soluçar, encontrava o corpo de menina encolhido atrás do sofá cinzento. Tentava esconder a água salgada que corria dos meus olhos até ao chão. Muitas outras lágrimas e bloqueios na garganta se seguiram, por todos os que amo profundamente.


Há umas semanas atrás adormeci abraçando uma t-shirt e repetindo a frase do meu amigo para abafar o som estridente da porta. Sorri ao acordar. Percebi a intensidade do amor que nutro pelo meu companheiro. “É tão bom sentir saudades” de uma forma tão intensa por alguém que sabemos que vai regressar dentro de dois dias, alguém com quem partilhamos o oxigénio do quarto e a temperatura média do leito todas as noites. Reconhecemos assim um Amor maior do que qualquer paixão: o companheiro da nossa vida; a pessoa por quem ouviremos eternamente o eco das batidas da saudade mesmo que um dia não queira mais partilhar o oxigénio do nosso quarto. 


Nessa mesma semana contemplei umas fotografias dos meus avós paternos no ecrã do meu computador. Quem as colocou na rede social estava longe de imaginar que os meus batimentos cardíacos se sincronizavam com as gotas de água fundida pela saudade. Tive poucos anos de vida partilhada com os meus avós mas as recordações e a herança genética que deixaram no meu pai são suficientes para continuar a alimentar o amor que sinto por eles. 


Muitas vezes tenho saudades de mim mesma. Contrariada pelas imposições da sociedade procuro perceber o que me faz falta enquanto me submeto às ordens que indevidamente nos julgam. Amordaço o meu ser para que não me achem conflituosa, retraio a minha espontaneidade para que as minhas palavras não sejam interpretadas como as de uma pessoa amargurada, dou menos de mim ao mundo com receio de multiplicar as cicatrizes que outras vidas me deixaram… e tiro o combustível necessário para me aquecer e energizar. Os ecos que ouço não me parecem as batidas da saudade (esta é muito mais fácil de reconhecer quando é externa ao nosso próprio ser). São ecos mais estridentes, ecos de culpa por não ser outra em vez de mim. Mas quando consigo sair da espiral que me afunda percebo que afinal é a saudade de mim que me chama. E então respiro profundamente e sorrio.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Entre as cinzas da sobrevivência

Tenho fascínio pelas teorias de evolução das espécies e do universo. Não me assusta saber que somos resultado de poeiras cósmicas e que...