domingo, 17 de julho de 2016

O Amor tem vertigens



Abriu lentamente os olhos que resistiam à sonolência provocada pelos analgésicos. Ainda com o olhar semicerrado procurou-a. Quando os seus olhares se cruzaram enviou três beijos para o ar que ela agarrou como se de um passe perfeito se tratasse. O sorriso dela escondeu a preocupação que a inquietava e, repentinamente, iluminou todo o espaço.
Ela tem um sorriso muito bonito, uma beleza vulcânica que ascende do interior até ao rosto sem perder energia. Talvez por isso ele tenha necessidade de verbalizar: “tenho uma mulher muito boa para mim” e de a chamar “meu amor” mesmo após quase seis décadas de união. 

Os meus olhos emocionaram-se. Os Amores verdadeiros reconhecem-se assim: na ternura que espalham no ar circundante; nos gestos que aprendemos desde cedo, como lançar beijos para o ar; ou num sorriso iluminado. Não precisa de palavras, a ternura de um Amor reconhece-se facilmente pois aconchega quem está por perto. 

Há cerca de oito anos atrás, quando a distância geográfica tornava as semanas intermináveis, o meu companheiro enviou-me a seguinte mensagem: “Vi um pôr-do-sol lindíssimo, guardei-o para ti”. Guardou-o na retina e na câmara fotográfica. Nunca cheguei a ver a fotografia porque aquela mensagem tinha tudo o que eu poderia querer. Esta é a sua forma pura, verdadeira e singela de Amar. Sei-o porque para ele a vida é perfeita simplesmente porque existe o Sol, a água, o vento,…, ensinou-me como nos encontramos connosco quando os elementos nos tocam. Trouxe leveza para a minha vida e é assim que nos vamos construindo. 

Ontem partilhámos um novo pôr-do-sol lindíssimo. Desta vez de mão dada, sem qualquer distância geográfica ou mental a contrariar o momento. Lembrei-me da mensagem que ele me tinha enviado há oito anos atrás. Essa recordação trouxe mais sabor ao momento.
Lembrei-me como nos segurámos um ao outro quando os tumultos vertiginosos do Amor testaram a nossa resistência. Essa certeza tornou o momento eterno. 
Vimos aquele pôr-do-sol lindíssimo com os poros das nossas mãos a fazerem as trocas iónicas necessárias para as células se manterem vivas. Tal como tivemos a coragem de encarar todas as trocas essenciais para dar vida ao nosso Amor. Ao contrário dos gatos, o Amor tem vertigens! Os gatos talvez não tenham vertigens porque a sua estrutura quase elástica não os faz temer a queda. O Amor verdadeiro tem muitas vertigens, porque conscientemente tem medo da queda. Mas o que talvez diferencie um Amor seja a capacidade de nos apararmos nas quedas. 

Não sei se o nosso Amor nos vai permitir uma união de quase seis décadas, se um dia estaremos a cuidar um do outro como aquele casal que hoje emocionou os meus olhos. No entanto, sei que o nosso Amor tem vertigens, cai e fratura-se muitas vezes mas nunca quebra.

Entre as cinzas da sobrevivência

Tenho fascínio pelas teorias de evolução das espécies e do universo. Não me assusta saber que somos resultado de poeiras cósmicas e que...