quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Ser ou não ser de Esquerda?

Há uns dias um amigo perguntava-me se eu considerava que me tinha tornado de esquerda, por força das circuntâncias, ou se já tinha nascido de esquerda. Respondi-lhe rapidamente, sem refletir sobre a questão, que me tinha tornado de esquerda pelas circunstâncias de tudo o que vivi e experienciei. Não fazia sentido que nos meus genes viesse a marca da minha opção ideológica.
No entanto, a pergunta do meu amigo carregava uma conotação muito mais profunda sobre o "Ser de esquerda". A sua pergunta era uma introspeção existencialista, de quem acredita que ser de esquerda é uma forma de estar na vida. Mais do que uma preferência ideológica ou partidária, mais do que acreditar numa teoria macroeconomica ou social, ser de esquerda é uma forma de estar em sociedade, de lidarmos com os outros, de sentir empatia e solidariedade. Creio que esta é a visão do meu amigo, que foi um dos militantes políticos que eu mais admirei exatamente por viver a política pela emoção. Esta é a minha visão. Ser de esquerda, não é uma opção clubística ou uma mera defesa de ideologia. 

Fazendo uma retrospectiva da minha vida, penso que era de esquerda muito antes de o saber. Uma vez ouvi uma entrevista do José Mário Branco onde ele dizia que, para ele ser de esquerda era não suportar o sofrimento alheio, o que para mim fez todo o sentido. Lembro-me das minhas brincadeiras solitárias de criança em que me proponha a mudar o mundo ou escrevia pequenas redações (imaginando uma carreira de jornalista) onde relatava aquilo que considerava injusto. Percebi muito cedo, pelo que vivi no seio familiar as injustiças das regras da banca. Depois, por influência do meu cunhado, devorei livros de autores de esquerda e comecei a ouvir música de intervenção. Foram influências é certo, mas o que me fez gostar daquelas músicas, daqueles autores e não de outros? Talvez uma característica genética? 
Mais tarde comecei a ler crónicas de pessoas ligadas à esquerda partidária, dita radical. Mas antes de conhecer a filosofia Marxista, ouvi falar de Luís Fazenda que travou uma batalha em defesa dos trabalhadores das minas da Urgeiriça. O que me levou a seguir o seu percurso partidário, com o qual me identifiquei. Para mim muito para além de lutar contra um sistema desigual, capitalista, ser de esquerda era lutar pelas pessoas em defesa das pessoas. 

Ser político é comum a qualquer um de nós, pois é estar em sociedade, viver em sociedade, é pela interação com os outros que nos transformamos e fazemos transformar. Ser de esquerda é optar por uma ação do nosso ser político, diferente da ação da direita. É querer o bem comum, não concordar com as regras do mercado que se sobrepõem à vida, é ser solidário em vez de caridoso. É acreditar num mundo onde todos possam ter as mesmas oportunidades. Olhar para o outro como igual e saber respeitar as diferenças.

Quando comecei a trabalhar percebi que esse ser de esquerda que em mim crescia, tinha uma dimensão muito forte, era o espelho da minha própria existência. Vivenciar as regras do mundo laboral, do capitalismo produtivo, fez-me querer ir mais além. Perceber que entre os trabalhadores não existe a consciência de classe fez-me querer ter ação política, além do simples estar em sociedade. No meu dia a dia travava uma batalha constante para não anular o meu ser (de esquerda), para que as minhas convicções fossem respeitadas mas percebi que essa é uma batalha que não conseguia travar sozinha. Foi então que decidi inscrever-me no partido em que sempre tinha votado e com o qual me identificava. Vivi a minha militância, como vivencio tudo no meu mundo, dando o máximo de mim, colocando emoção em tudo o que fazia. No percurso percebi que há muitas formas de Ser de esquerda, exatamente porque cada um de nós é único, e há uma grande diferença entre Ser de esquerda e ter militância à esquerda. Pela minha ingenuidade estava no partido pela utopia, tinha dificuldade em lidar com a tática política e muito mais com os jogos políticos. Mas sempre os soube necessários e conheci pessoas com uma capacidade tática absolutamente admirável. Percebi também que em muitos agentes políticos existe uma certa presunção moral, nunca questionam a sua visão, e consideram a sua forma de estar à esquerda unicamente correta. Talvez seja por isto que existe tanta divisão na esquerda, talvez seja por isto que a esquerda anticapitalista falha na sua luta maior de transformar a sociedade e derrubar o capitalismo. Saber ouvir é essencial na ação da esquerda.

Recentemente senti que estava pela primeira vez a anular o meu Ser de esquerda, ou seja a forma como me relaciono com os outros, comigo mesma, com os meus ideais e sonhos. Percebi que no partido a tática se sobrepôs ao sonho, à utopia. A minha militância era nutrida pela certeza do balanço positivo que era feito entre o sonho e a tática. No entanto, esse alicerce foi quebrado quando olhei à minha volta e percebi que a balança não estava mais equilibrada. A preocupação em manter o partido começou a ser muito maior do que a preocupação com a realidade social. Depois tive uma desilusão imensa quando realizei que algumas das pessoas mais próximas de mim tinham uma ação meramente tática, não tendo em si qualquer essência de esquerda. Não são de esquerda como eu concebo o ser de esquerda, são militantes de um partido pelo desafio, pelo jogo, pelo prazer de ser contra o poder. Pessoas que eu seguia e nas quais acreditava revelaram um défice de solidariedade  e isto fez-me perder a esperança. 
Posso ter uma visão errada, demasiado idealista, pouco racional mas é a minha conduta, o meu ser de esquerda que me fomentam. Não posso anular isso em mim e por isso demiti-me, primeiro dos cargos de direção e mais tarde do partido. Fiquei com um vazio imenso em mim, sinto que falhei a pessoas fantásticas que conheci. Não sabia como canalizar a minha vontade de intervir. Conheci pessoas que vou sempre apoiar. Votar no Moisés Ferreira, por exemplo, para representar o distrito de Aveiro no parlamento, é imperativo para mim. Conheci nele esse ser de esquerda que tanto admiro, o ser solidário, combativo, justo. Uma pessoa que consegue facilmente racionalizar e tomar opções táticas nunca descurando o que é essencial na sua essência. Reconheço nele a capacidade que eu não tive de equilibrar a emoção e a razão. Sei que a sua voz faz muita falta na Assembleia da República e sei que essa voz nunca deixará de se ouvir em sociedade. 

A mim consola-me saber que o meu ser de esquerda não se esgotou na ação partidária, esse ser é a minha existência. Sei que sem a ação partidária, sem esse coletivo nunca conseguirei ter ação em lutas maiores. Mas não consigo ter ação num coletivo onde me dizem que estar em política não é uma questão pessoal mas unicamente ideológica. Para mim é toda uma questão pessoal, são os meus valores e a minha interação com outros. O meu ser político existe pela interação social. A minha ideologia é alimenta pelas pessoas e pela defesa da igualdade entre elas. 

Nessa mesma conversa o meu amigo, disse-me que eu sou uma das pessoas que mais o influência neste momento da sua vida. Isso dá-me alento, faz-me acreditar no meu ser de esquerda e na capacidade de ter ação política, perceber que posso não conseguir transformar o mundo sozinha mas consigo transformar pensamentos e ações daqueles que me rodeiam. Sei que não é pela estratégia unitária que vou conseguir fazer alguma diferença maior na sociedade. Mas sei também que o meu espaço de ação partidária se esgotou pelo desmantelar da idealização, talvez demasiado romântica, que construí. Espero conseguir mostrar a muitas pessoas que são de esquerda sem o saberem, mesmo que nunca tenham pensado em questões partidárias. Espero, também, que muitas das pessoas, com as quais me cruzei no partido, continuem o seu percurso de luta e coragem, e consigam equilibrar novamente a balança. A essas pessoas tenho muito a agradecer, pelo que aprendi e pelo que partilhei com elas. 

Ao meu amigo respondo, agora, que eu e ele já nascemos de esquerda, porque para nós ser de esquerda é o que define a nossa existência e a forma como vemos o mundo. Podemos não perceber muito de estratégias, táticas, não termos uma visão macroeconómica muito fundamentada em ensaios político-económicos mas temos aquilo que considero essencial: somos movidos pela solidariedade, pelo sentido de justiça e igualdade. A esse meu amigo quero também dizer que é uma das pessoas do meu mundo, não apenas daquelas que passam e nos deixam marca, mas que nos transformam.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Amor em tempos revoltos

Este poema foi escrito há largos meses atrás, é dedicado ao meu companheiro que todos os dias me (re)ensina a viver:


I
Beijas-me a face salgada
Que os meus olhos regaram.
A doçura dos teus lábios
E o calor dos teus braços
Lembram-me a paz de outros momentos
Quando a tua pele adubava
Em mim a felicidade.

O teu olhar, agora baço,
Reflete a dureza das horas
Da tranquilidade perdida.
A dor de te sentir triste
Petrifica meu ser inquieto.

Quero falar-te
Mas as palavras atropelam-se
Nos pensamentos inconstantes.
Quero afagar-te
Mas o movimento gela
Na certeza do meu corpo indigno.

II
O caminho é incerto
Tão ingreme que me
Enche de cansaço
Mas neste percurso respiramos
E sentimos o vento, o sol e a vida.

Meu corpo cansado
Minha mente revolta
Dizem-me que a subida é agreste
Mas será fresco o descanso.
A vontade será o nosso mapa
E a memória a nossa bússola
Não sei se seguimos a mesma rota,
Não sei onde é a meta
Mas conforta-me a certeza de que partimos juntos.

III
Desta janela não vemos o mar
Quando queremos sentir a rebentação
Das ondas brancas
Mas procuramos tanto que encontramos
O granizo no lugar da espuma dos sentidos.

Mas porque queremos olhar o mar
Quando temos a lua e as estrelas,
Que cintilando nos contam os segredos
Da origem do mundo?!
Mas porque queremos olhar o mar
Quando temos a tranquilidade das águas calmas,
Aqui, diante desta janela aberta?!

Entra o frio, meu amor,
Mas também o cheiro da maresia
E o cantar das aves notívagas.
A luz é fraca bem sei,
Mas repara nos meus olhos
Sedentos de vida,
Neles mora o brilho da memória
Do livro que os dois escrevemos.




quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Desarmem o preconceito

Esta é a minha primeira publicação no meu blogue "Utopia é a Meta". Tenho necessidade de organizar as minhas ideias e emoções, escrever sempre foi a melhor forma que encontrei de o fazer. Desta vez não o faço em nenhum dos cadernos que tenho espalhados pela casa cheios de anotações e pensamentos porque tenho necessidade que me "ouçam" sem ter de, uma vez mais, verbalizar o que sinto. A verbalização dos meus sentimentos e emoções é-me muito difícil quando se trata de dor ou sofrimento. Esta publicação surge também pela resposta social que considero urgente para situações como a que estou a enfrentar.
A depressão, considerada a doença do século, é no meu entender um problema social e político ao qual os agentes políticos não dão a importância devida. Vivemos numa epóca frenética, onde o medo, a incerteza, o preconceito, os esteriótipos, as convenções e generalizações nos moldam a existência. As regras laborais ditam o medo do presente e o pavor do futuro. As convenções obrigam-nos a anular algumas das características mais íntimas ou a vivermos um conflito interior constante. No meio de tudo isto os nossos processos bioquímicos sofrem desiquilíbrios, as sinapses não se processam de maneira equilibrada até que chega ao momento em que a síntese dos neurotransmissores essenciais ao nosso bem estar não é suficiente. 
A depressão é uma doença bioquímica, fácil de entender mas difícil de aceitar. Existe um preconceito (mesmo que não seja reconhecido) generalizado. Os doentes são considerados mais fracos do que as outras pessoas, porque não conseguem lidar com as emoções. Por outro lado, é vista por muitos como uma doença menor, daqueles que querem "chamar a atenção". Nenhuma das visões é correta, a depressão é uma doença real, um problema social concreto que não encontra resposta nem à direita nem à esquerda na esfera política. A direita fomenta um sistema injusto, desigual e onde as diferenças não cabem; o foco de ação da esquerda (ideologia política que defendo) descura muitas vezes as fragilidades e necessidades individuais, não reconhecendo que o colectivo é um conjunto de indivíduos diferentes na sua essência. A tentativa de transformar o sistema atropela muitas vezes as vontades e percepções individuais.
Há cerca de nove meses fui pela primeira vez a uma consulta psiquiátrica, onde me foi diagnosticada depressão. Os sintomas já os sentia há muito tempo mas tive sempre alguma relutância em enfrentar a realidade, até que o meu companheiro marcou a consulta. Pensei que fosse apenas um episódio depressivo, como vários que já havia ultrapassado. Mas a total apatia,o choro convulso, a angustia constante marcavam a realidade dos meus dias. Aceitar que tinha este problema foi muito difícil, porque o preconceito à doença surge numa primeira instância no próprio doente. Questionei-me porquê comigo, passei pela fase de negação. Pensei que seria mais um episódio depressivo e que iria passar. A fase seguinte foi de um confronto interior que ainda não consegui ultrapassar, senti-me fraca, inferior a todos os outros, incapaz. A incapacidade afetou-me também a parte física, perturbações gástricas, dores musculares e cefaleias. Não tinha capacidade de fazer qualquer tarefa. Culpava-me por tudo e queria a toda a força encontrar uma justificação para o que estava a passar. Mas não a encontrei. Podem ser muitos aspectos, uma questão genética, as minhas desilusões sucessivas com pessoas e idealizações. Não encontrei um motivo único e percebi que tinha de enfrentar o problema. Iniciei atividades desportivas, bebi força dos amigos maravilhosos que sempre estiveram para mim, do meu companheiro e família. Essa seiva de carinho, solidariedade e compreensão fortaleceu-me e consegui viver com a mesma ânsia de tudo saborear, tive momentos dolorosos mas outros simplesmente deliciosos. No entanto, continuava em busca de respostas e, apesar de todo o apoio que encontrei, continuei insistentemente em busca de outras mãos que não estavam estendidas para mim. Neste processo percebi a força da verdadeira amizade. Mesmo que os amigos não nos entendam na totalidade não nos fogem, seguram-nos a mão para não cairmos. Mas estava determinada em incluir no meu mundo pessoas que idealizei e simplesmente não tinham a mão estendida para mim. Foi então que caí no mais fundo do poço, foquei-me na idealização e não observava o real. A doença tem esta capacidade de nos escurecer completamente o pensamento, de criar uma teia com pensamentos obsessivos que deturpam a realidade. Esta queda foi extremamente dolorosa, a culpabilização de todos os meus atos, de todas as minhas opções, enchia-me a visão de mim mesma. Senti-me a mais na vida dos que amo, senti-me inútil, profundamente incapaz. O desprezo por mim e por tudo o que antes me interessava, a angústia constante e a dor fria que penetrava o meu peito alimentaram os meus pensamentos de desaparecer. Considerei que aqueles que são o meu mundo me fazem muita falta mas eu não faria qualquer falta para eles. Alimentei as minhas certezas da rejeição que estava a sentir do lado idealizado por mim. Criei uma realidade deturpada. Considerei que aqueles que amo seriam mais felizes sem a minha angústia, sem o espectro no qual me tinha transformado. 
Comecei a pensar que toda a minha vida era um conjunto de frustrações, que a minha constante inquietação me tinha transformado numa pessoa falhada e sem lugar num mundo real. Semprei idealizei muito, continuo a querer seguir as minhas utopias. Não tenho medo das frustrações mas não suporto as rejeições e desilusões daqueles a quem dou tanto de mim. Semprei adorei o poema de Ricardo Reis: "Para ser grande, sê inteiro: nada/Teu exagera ou exclui./ Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ No mínimo que fazes./ Assim em cada lago a lua toda/Brilha, porque alta vive". Assim vivo, pondo tudo de mim em tudo o que faço, dando o máximo de mim às pessoas de quem gosto, vivo sempre no pico das emoções. Nunca tive medo do sofrimento porque sem ele não conseguiria reconhecer os momentos verdadeiramente felizes. Viver as emoções ao máximo desgasta-nos mas nunca me preocupei com esse desgaste porque sabia que no dia seguinte estaria recuperada. Agora o processo é diferente, talvez pelo acumular de desilusões, talvez por ter idealizado demasiado, talvez por fazer demasiadas perguntas. Senti-me no limite das minhas forças e capacidades, assusta-me a ideia que me absorveu de desistir. 
Racionalmente sei que não quero desistir, tenho um companheiro absolutamente admirável, os sobrinhos que me alegram nos instantes mais improváveis, uma família presente, amizades profundas, verdadeiras, sólidas. Sei que tenho tudo isto, exatamente por nada excluir em mim, por não ter medo de viver as emoções, por ter uma mente inquieta e me questionar sobre tudo o que me rodeia. A minha essência trouxe-me o melhor que tenho no meu mundo mas também contribuiu para a minha doença. Cabe-me agora a difícil tarefa de me aceitar, de perceber onde devo ser mais racional e menos emotiva. Acalmar parte da minha inquietação e aceitar que há perguntas que simplesmente nunca terão resposta.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Quimera, sonho

Como diria Caetano Veloso "vida sem utopia não entendo que exista". Neste blogue vais encontrar opiniões, considerações, observações, sensibilidades de quem vive a vida pelo sonho. A utopia é o que me faz avançar e como escreveu um dia Miguel Torga "O que importa é partir, não é chegar".

Entre as cinzas da sobrevivência

Tenho fascínio pelas teorias de evolução das espécies e do universo. Não me assusta saber que somos resultado de poeiras cósmicas e que...